O homem que envelhece vai tomando gradativamente consciência de que não é eterno. Agita-se menos e, assim, os sons das vozes que vêm do além se fazem ouvir.
(Romano Guardini)
Aquilo que verdadeiramente é mórbido não é falar da morte, mas nada dizer acerca dela, como hoje sucede. Ninguém está tão neurótico como aquele que considera ser neurótico decidir-se a pensar sobre o seu próprio fim.
(Philippe Ariès)
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A morte, sem dúvida, também é um tema, objeto de pesquisas e preocupações. Negá-la como fato é difícil. Admitir as perplexidades que a cercam é quase uma virtude, principalmente amparada pelo equilíbrio mental. Querer fugir à realidade de que, ainda, ela assusta, é arriscado intelectualmente.
A morte amedronta? Meu velho tio, brincando, sempre dizia que: "Se a morte é descanso, prefiro viver cansado." A gente ria, mas no fundo aprendeu-se. Já na minha juventude, lia muito poesia e encontrei muitos versos dedicados à morte. Diversos os conceitos, variadas as posições frente à temática. Mas, percebi que, de fato, a morte é, existe e representa, sim, a única e definitiva certeza da vida. Já muitos o disseram.
Gostava do "Poeta do hediondo", o nosso Augusto dos Anjos que, no célebre soneto com esse título, confessou:
Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
Quando me decidi a examinar o tema, vi-me assustado. Lembrei-me de um chiste de Woody Allen, que colhi em Dicionário de Pensamentos, muito interessante:
Não que eu esteja
com medo de morrer.
Apenas não queria estar lá
quando isso acontecesse.
Brincadeira séria, reflete mais ou menos a maioria dos seres vivos quanto à Morte. Quevedo, também, oscila em seis versos significativos:
O que chamais de morrer
é acabar de morrer
E o que chamais nascer
é começar e morrer
E o que chamais viver
É morrer vivendo.
Gostei de esgrimir com a morte. Senti-a, às vezes, amedrontadora. Outras vezes, convidativa. Outras, ainda, repulsiva e indesejável. Quase sempre a senti um pouco misteriosa, assim como se pouco sabida, pouco entendida e pouco explicada. Daí ter me inclinado a examiná-la em relação à Poesia. Os poetas, como sempre, falam bonito das coisas. Adivinham, têm olhos cismadores, fantasiam, acalmam, afastam o medo e a depressão. Com a morte eu bem senti isso. E caminhei. Não sei se cheguei...
O que é a morte?
São Paulo decifrou-a:
"A morte é passagem para a vida definitiva". (2 Coríntios, 4, 16-18 e 5, 1-10)
Eurípedes, o trágico poeta grego, já refletia indeciso por volta de 480 a.C.:
Morrer deve ser como não haver nascido
e a morte talvez seja melhor até que a vida
de dor e mágoas, pois não sofre
quem não tem a sensação dos males.
Fernando Pessoa considerava a morte um "enigma" e falou disso em seus versos:
O que é a vida e o que é a morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as cousas que há
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer cousa aqui
Terá de mim o próprio estigma
Da sombra em que eu vivi.
Omar Khayyam falou da morte com restrição até à vida:
Não temo a morte: prefiro
esse fato inelutável
ao outro que me foi imposto
no dia do meu nascimento.
Que é a vida?
Um bem que me confiaram
sem me consultar
e que restituirei
com indiferença
Os dicionaristas tratam-na como um fato: "É a cessação completa e definida de vida de um homem, de um animal ou de um vegetal" (Delta Larousse); "o ato de morrer; o fim da vida animal ou vegetal" (Aurélio). Jânio Quadros amplia: "O fim da vida animal ou vegetal; cessação da vida; ação de morrer; termo; fim; destruição; acabamento." Seguem exatamente as mesmas linhas, ainda, os Dicionários da Academia Brasileira de Letras, Melhoramentos e Caldas Aulete. A morte no Oxford Universal Dictionary não difere também: "Death: the act or fact of dying; the final cessation of the vital functions of an animal or plant" (Morte: o ato ou fato de morrer; a final cessação das funções vitais de um animal ou vegetal).
Sob o ângulo médico-jurídico, a coisa se complica. Morte, real ou aparente? Existem os sinais clínicos clássicos e as provas pactognômicas para a certeza da morte? Estão presentes as funções vitais do ser alguma delas? A "fácies cadavérica, a imobilidade e o relaxamento dos esfíncteres" surgiram? A morte é cerebral ou cardíaca?
Sob o ângulo religioso, são igualmente inúmeras as perplexidades? Morreu, acabou? A morte é o fim? Existe a vida depois da morte? Existe a Vida Eterna? O limiar da morte é científico? Que diz a Filosofia sobre a morte, os conceitos de alma, espírito, etc.?
Um verdadeiro Universo, talvez inalcançável...
Depois dessas considerações, voltei rápido à Poesia. A morte fica até um pouco mais bonita, mais desejada, mais compreensível, mais aceitável. Surgiu, então, outra perplexidade. Foram tantos os poemas, sonetos, trovas, textos e abordagens dos poetas sobre a morte que eu me vi obrigado a adotar critérios. Mas, quais? São tão imensos os poetas e são belos e sugestivos tantos trabalhos... Daí porque me antecipo em apresentar escusas se esqueci alguém mais importante dos que eu citei entre os poetas e os poemas a respeito da Parca, às vezes maldita e às vezes, quase sempre, abençoada. Afinal, a morte é também "coisa de Deus".
A morte para os poetas
Augusto dos Anjos tem um soneto em que não fala da morte, mas de quem cuida, um pouco, de sua fase terminal. São os "Versos a um coveiro", um soneto cru, cruel e realisticamente macabro e assustador. É o lado triste da morte:
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!
Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!
Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais:
Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números
A tua conta não acaba mais!
Castro Alves pedia, profético:
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto,
Como o viajante desse hotel funéreo.
Oliveira Ribeiro Neto é consciente do poder irreparável da morte:
Pois nada vale esforço, luto e choro,
serão todos cantores do seu coro,
que só não muda e se transforma em nada
a sempiterna de olhos de safira,
potente, alada e lúbrica mentira
pelo sonho dos homens sustentada.
Emílio de Menezes, o satírico, o humorista do verso, fala assim, e tão bem, da morte:
Vai, sacrílega, a morte, em sempiterna ronda
A ceifar e a espalhar o horror e o sacrilégio.
— Quem há que ao seu apelo, acaso não responda,
Seja espírito escasso ou pensador egrégio?
É uma alma juvenil? Ela, em volúpia, a sonda...
É um sábio? Ela o envenena em letal sortilégio...
É um artista? Ela o chama e erguendo a destra hedionda
Ao mundo inteiro impõe o seu domínio régio.
E é bem conhecido o magistral soneto de Francisco Otaviano, mais ou menos na esteira da Hamlet, ao filosofar via Shakespeare, a respeito da morte:
Morrer, dormir, não mais: termina a vida
E com ela terminam nossas dores,
Um punhado de terra, algumas flores
E às vezes uma lágrima fingida.
Sim, minha morte não será sentida,
Não deixo amigos e nem tive amores!
Ou se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.
Tudo é pobre no mundo; que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe
Se a natureza para mim está morta!
É tempo já que o meu exílio acabe;
Vem, pois, ó morte, ao nada me transporta!
Morrer, dormir, talvez sonhar, quem sabe?
....etc....
Texto do poeta e escritor Alcy Gigliotti..